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sábado, 16 de janeiro de 2016

Filme - The Normal Heart...

Antes de mais nada, quero que leiam essa resenha sabendo que entro facilmente nos filmes que assisto e que sou manteiga derretida, então eu choro com pouca coisa, mas esse filme me chocou muito. "The Normal Heart" fala sobre assuntos que hoje são batidos, mas nas entrelinhas há uma batalha política e social que não queremos enxergar e ignoramos sempre. Ninguém gosta de quem põe a boca no trombone para as coisas que fazemos errado e que se não fizermos seremos excluídos dos círculos privilegiados da sociedade, do emprego e da galera dos que vivem de acordo com o status quo, mesmo que isso reprima quem realmente somos, mesmo que isso faça com que tenhamos que esconder nossa verdadeira vontade e prazeres.

Tanta coisa pra falar sobre esse filme com um grande nó na garganta. Um nó chamado "bom senso" que é aquela trava psicológica que somos ensinados desde criança para não falar coisas que vão envergonhar nossos familiares e amigos. É o que acontece no filme que se passa em 1981 quando uma epidemia começa a matar gays. Assumir sua sexualidade era um problema e continua sendo até hoje. Ned Weeks não tinha problemas em falar sobre assuntos polêmicos e após a morte de um amigo para o "câncer gay" começa uma batalha para que a doença fosse estudada e para ganhar a atenção e o cuidado dos jovens gays que corriam risco de contrair a misteriosa doença que só afetava homossexuais. Durante a trama os amigos de Ned ficavam cada vez mais apreensivos com a forma com seu comportamento sensacionalista ao se expressar, aberta e sinceramente, mas enquanto ninguém mais queria falar sobre o assunto, muitos homens morriam dia após dia. Isso continua acontecendo, mesmo hoje em pleno século XXI, 2016 e as pessoas ainda não aprenderam que precisam tornar públicos os assuntos complicados e responsabilizar as pessoas certas sobre os problemas. Não adianta ficar especulando, toda a nossa cultura é baseada em esconder os problemas e essa é uma das razões pelas quais ainda vivemos com medo. Vivemos com medo de viver.

Voltando ao filme, as atuações são sensacionais, Mark Ruffalo está brilhante como o gay "boca grande" com toques femininos naturais e na medida certa, acontecendo em momentos engraçados e tensos do filme, como que para nos lembrar que os gays não são afeminados porque querem ou em ocasiões especiais, é sua verdade. Ele nos faz rir, nos faz chorar, mas especialmente nos tira da zona de conforto, fazendo as perguntas certas e gritando o que  todo mundo deveria gritar junto: Se não fizermos alguma coisa, nada nunca vai mudar!
Julia Roberts é outro ponto forte do filme e quando tem seu trabalho sobre o HIV negligenciado, nos mostra uma cena incrível em uma atuação que faz valer a pena estar atento ao filme. Jim Parsons faz um papel coadjuvante sensível, ele liga os amigos do grupo de ajuda para os gays e se destaca no humor. Matt Bomer fica com as cenas fofas do filme, quando começa a namorar com Mark, faz com que qualquer um acredite num relacionamento tranquilo, até que ele descobre estar infectado e protagoniza cenas tensas e plásticas com talento. Joe Mantello tem um personagem carismático e excêntrico, mas assim como Julia, tem uma cena que o coloca em outro nível perto dos outros coadjuvantes.

Além de falar sobre a homossexualidade, o sexo, a Aids e os problemas políticos e sociais que os envolvem sem preconceitos, o texto nos coloca na posição desconfortável de questionar todos os dias por que não falamos sobre o que nos incomoda e por que não deixamos de fazer algo que nos faz mal ou pode causar doenças, que no caso do filme é sexo sem camisinha (já que na época não se usava). Todas as discussões do filme são um soco no estômago de quem vive escondendo seus problemas e sua sexualidade, ainda que seja um assunto delicado por sermos vítimas de preconceito.
A beleza plástica das cenas, cenário e figurinos é bastante simples, mas algumas cenas impressionam pela fotografia. E o que mais me tocou, em todos os personagens há emoção sincera no olhar. Não há uma única cena em que os atores não estão 100% entregues aos personagens.

Este é um filme que todos deveriam assistir, mas que especialmente nenhum LGBT deveria perder.
Baseado numa peça de teatro escrita por Larry Kramer em 1985 para chamar atenção sobre a doença que dizimava as pessoas e não tinha a devida atenção, a adaptação do longa metragem The Normal Heart é dirigido e produzido por Ryan Murphy e HBO e foi lançado em 2014.

the normal heart

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