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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Doe uma palavra - Piranha!

- PIRANHA!

Foi o que ela me disse, na cara dura. Mas a piranha mesmo, era ela. Se acabava por aí, bares, esquinas, avenidas, botecos, baladas e qualquer lugar onde tivesse alguém para flertar. Flertava, rodava de mão em mão, de boca em boca, de p... bem meu amigo, você já entendeu, não é? Piranha mesmo! Vagabunda que não sabia nem fazer conta pra saber quanto dava do dinheiro do aluguel. Tirava tudo do bolso dos bêbados e dos trocos do busão. Acordava, se lavava, passava um perfume forte pra esconder os cheiros de ontem, deixava a roupa de molho e saia depois do almoço, sem comer nada. Ia bebericar e beliscar o almoço dos peões de fábrica enquanto lhes dava alento e diversão. Conhecidíssima na vila, ninguém mais ligava para reputação, mas ninguém podia negar também, era uma piranha bonita. 1,75 de altura, pernas torneadas, cabelo preto e ondulado até o meio das costas, nunca estavam limpos, mas brilhavam muito, a pele era morena de tanto tomar sol na rua, por viver perambulando de bar em bar, de dormir na praça quando cheirava de madrugada. Era bonita a piranha.

- Só não me chama de puta, hein!? Que eu viro bicho!
- Puta, puta, puta puta puta! - gritava o "seu" Firmino, o bêbado mais gente boa que você poderia conhecer. - Nem ligo! - E caia na gargalhada.
- Puta é sua mãe, seu bêbado desgraçado!
- Puta e mãe de 10. Puta mais dava de comer pra nóis tudo. Verdade, ocê num é... - soluçou e demorou pra recuperar a voz - num é puta. É... - pegou todo o fôlego que pode e soltou numa palavra - PIRANHAAAA!!!
- Sô mêmo, Firmino. Sô muito! - E gargalhou também, enquanto piscava pro Zé da construção e roubava uma coxinha do Galego.

Piranha. Piranhona mesmo! Era assim que era conhecida.
- A Piranha vem aí! Segura os prato e fecha os bolso! - gritava quem a avistasse primeiro.
Ela não se incomodava, contanto que não se incomodassem com ela. Tinha sorte. Tinha sorte porque tinham pena da moça. E porque ela era bonita, bonita demais! Senão, já teriam-na espancado. Teriam deixado ela de lado, ninguém daria bola, ninguém daria comida, nem deixaria o dinheiro no bolso, metade pra fora, pra ajudar a coitada. Coitada. Foi abandonada, ainda criança, no altar. Cresceu louca, mesmo já não sendo muito certa quando aceitou se casar com o Marmelo aos 13 anos. O Marmelo era um traficante de meninas, ia casar com ela para levá-la para Aparecida de Bom Jesus, só não deu certo, porque o pai da melhor amiga da Piranha descobriu tudo, pegou o Marmelo no caminho pro casamento e meteu três tiros no infeliz. E a Piranha ficou doida. Esperou até o outro dia, porque quando o padre foi buscá-la para fechar a igreja, ela estava dormindo de tanto chorar no carpete do altar. Seus pais ninguém conhecia, ninguém sabia exatamente como ela tinha chegado na cidade, aos 8 anos, com olhos cor de mel estatelados, uma bolsa com duas trocas de roupa, uma piranha nos cabelos e uma carta onde estava escrito só uma palavra: Desiree.

Femmes de Maison - Henri de Toulouse-Lautrec
- Eu não sou piranha, eu sou puta. 50 reais a hora. Topa?






Palavra doada por Whintney Polato
Escreve no blog Traga meu Café.
E é uma artista de muitos talentos.

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