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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Banho de canequinha...

Há experiências na infância que normalmente nos deixam nostálgicos na vida adulta, como por exemplo, deitar no sofá para assistir filmes da "Sessão da Tarde", ter a mamãe cuidando de você quando está doente, comer aquele doce que marcou sua infância, enfim, podemos pensar em várias coisas legais, porém tomar banho de canequinha não é comum entre elas. Só que para mim, foi uma experiência bastante interessante, mesmo que forçada pelo imprevisto, porque além de relembrar quando isso acontecia na infância, me fez analisar outras questões da vida adulta. Numa fatídica sexta-feira a noite, enquanto eu tomava banho, a resistência do meu chuveiro quebrou e para minha (falta de) sorte, o único lugar que vende a resistência fechou mais cedo no sábado, ou seja, nada de banho quente até segunda-feira. Minha irmã e um amigo até foram comigo em algumas lojas para procurar, mas não encontramos nada. Então a única saída era enfrentar o banho tcheco!

Comecei a preparar as coisas que ia usar no banho, um balde para colocar a água, coloquei uma caneca de água para esquentar, escolhi uma das minhas canecas da coleção para o banho e lá fui eu, encher o balde de água fria enquanto a água esquentava, coloquei um som ambiente, acendi um incenso. A água esquentou e chega a hora de temperar o banho, coloca mais água quente porque ainda está gelado, coloca mais água fria porque ficou quente demais. E durante o banho, oportunidades. Molhe o corpo todo com a caneca, para ensaboar e esfregar com a esponja. Sem pressa. Sem pressão de chuveiro aberto gastando água e energia. E não, não é a mesma coisa que desligar o chuveiro, você vai para um banho de canequinha com outra mentalidade, você vai para um ritual de banho. Faltou um pouco de água na perna direita, molha mais e ensaboa, esfrega, sente a perna, você não tem pressa, não mais. Enxágua o corpo, tira o sabão fazendo carinho e deixando a água cair como você quiser. Não mais um conjunto de gotas que batem no corpo e expulsam o sabão, mas uma onda calma e pequena de água tranquila que desliza pelo corpo e leva a mão e o sabão juntos. No final, sobra um pouco de água ainda no balde e você despeja na cabeça, sente a água passando pelo corpo te acariciando. Morna, leve, gratificante.

Mary Cassatt - The Child's Bath
Mary Cassatt - The Child's Bath - 1983
Você sai do banho de corpo e alma lavados, porque não tomou um banho para se limpar da sujeira do dia a dia, mas um banho que foi preparado por você, do jeito que você precisava, com a água na temperatura mais agradável, sem violência ou pressa. Você se limpou com cuidado, com atenção. Precisou prestar mais atenção onde ensaboar e sentiu seu corpo, precisou prestar mais atenção onde jogar mais água e sentiu seu corpo. Preparar o banho, tomar o banho, sair do banho e cuidar de tudo de novo, devolver as coisas no lugar, lavar o balde e a caneca, é um rito, longo e só seu, mas esquecido. Hoje entramos no chuveiro, colocamos sabão na esponja e esfregamos o corpo rápido, passa shampoo e se enxágua com pressa, sai do banho já se enxugando e vai embora de volta para sua vida corrida. Esquecemos do poder que tem um banho, da beleza desse rito que não é só de limpeza, mas de purificação. E tomar banho de canequinha me fez perceber a violência do chuveiro, da água esguichada e não passada pelo corpo, me fez perceber que não temos mais costume de preparar nada antes, nem de aproveitar o durante, nem de relaxar no depois. Tudo é correria. Um banho me fez perceber que preciso de mais preparar para que minha vida seja mais plena, preparação para executar, executar com calma e aproveitamento e refletir o seu efeito de corpo e alma. Sem pressa.

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