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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Fale-me mal...

Pode me maldizer, me entristecer pelas costas e deixar meu coração miúdo de tantas palavras pesadas em cima dele. Deite na minha vida a língua, gosmenta e venenosa, espalhando aos quatro ventos o que fiz até aqui. Distorcendo, espremendo pimenta e deixando tudo mais social. Afinal, nos encontros corriqueiros só se fala de desgraças, uma passada rápida pelos momentos de alegria, e depois só lamentos. Muda-se a postura, a expressão e o tom de voz ao dizer: "Você não sabe quem morreu..." Parece preparatório de narração de espetáculo de Shakespeare, mas a ladainha poria Hamlet para correr de susto.

Pois é, corre lá na feira de rua e grite para todo mundo que eu sou o filho do diabo! Maldize, xinga e escarnece. Põe pra fora o que te aborrece e desaba ao chão no fim, recuperando o fôlego, enxugando a testa e quase sem forças depois de tão desesperada e sentimental cena teatral. Aborrece de ter esquecido de sujar meu nome antes e cospe no chão, uma gota de sangue, surgida da inflamação no seu coração.

Mas agora venha até mim, de alma lavada e superior, sentindo-se justiçado, embalado pelos gritos da multidão que te entendeu e agora te defende do monstro que sou eu. Venha ver-me pequeno, no chão, coberto de suas injúrias e amedrontado de seu poderio. Venha e fale-me tudo outra vez, joga em mim todo o veneno que destilou em praça pública e enfrenta-me os olhos. Enfrenta-me, afinal, não sou ninguém!

Não pode?

Agora, frente de minha face, ofereço-lha inteira, esbofeteie minhas maçãs vermelhas de vergonha e deixe todo meu corpo em carne viva. No tapa, use as garras de águia que tanto te orgulha. Use-te em mim, descarregue a raiva que usa de combustível para me negar! Abusa da tua fúria e venha enfim te vingar do que eu quis fazer com você! Mas diga-me na cara. Despeja tua bandeja de arrependimentos sobre mim e, quando terminar, ajoelhe-se. Torne-te o verme que és, enfie na terra teu corpo imundo e inerte e deixe de existir.

Para mim, haverá pranto. Para você, não seco uma lágrima. Não te culpo, fui eu quem quis te mudar. Não tenho o que perdoar, mas também não tenho o que temer. Você perece e sabe bem como e porquê. De dentro pra fora, rapidamente, por sentir-se só e ver uma mão buscando-lhe na escuridão envolvente onde estava. Vai com um grito de desespero perceber que agora as mãos que te prendem os braços e pernas são as mãos duras e frias da morte.

Cain and Abel - Pietro Novelli

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