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segunda-feira, 20 de julho de 2015

Não gosto dos "realistas"...

Não consigo gostar dos ditos "realistas", não mesmo!
Eles creem que a verdade é o que os olhos veem, o que a pele sente. Acreditam até que o mal existe.
Penso diferente. Acredito que a realidade é respeitar a verdade de cada um, com suas próprias dores ao rasgar na carne, mas ninguém sente a dor do outro, uma dor que só acontece na mente humana.
Tanta gente sofre todos os dias pelas dores que não são suas, que quando acordam desse sonho coletivo e sentem suas próprias dores, choram como uma criança que rala o joelho ou tira a tampa do dedão pela primeira vez. O sangue corre e mancha a roupa, assusta os olhos, e de quente, esfria na ducha com o sabão que arde.

Na verdade, a gente esquece das dores da infância. Dói crescer, dói não ter poder, dói ser alguém que tem todas as soluções pro mundo todo e não ser escutado. Nos acostumamos com a dor e ela se torna tolerável. De tolerável deixamos pra lá, e o incomodo vai passando. Deixa de doer como antes doía muito uma picada de formiga, mas agora é mesmo "só uma picadinha". E vamos fechando os olhos, amadurecendo, endurecendo, parando de sentir as dores da gente, porque as dores do mundo são maiores, as dores dos outros são piores. E como dói ver a dor do outro! - Pronto, pode dormir agora, está preparado para viver em sociedade, iludido e corrompido.

A dor do mundo cai sobre nós todos os dias quando o sol se deita, nos jornais depois de um dia duro de trabalho, e nos acorda cedo, no jornal da banca e no "Bom dia" acompanhado de uma tragédia para quebrar o gelo. Nessa realidade, quem não acredita que o mal exista? Nessa rotina, quem se lembra das próprias dores? Somos tão pequenos, e o mundo é tão pior do que era antes.
Se a realidade for de dores, o sofrimento deixa todo mundo louco. E é nisso que acredito.
Os "realistas", bando de alucinados que se empolgam com as tragédias e se irritam com a normalidade; nada os diferencia hoje dos coliseus de outrora, querem sangue, mas não pedem por ele, só comemoram e pagam para ver. Mas quando é seu sangue, a realidade muda de cor. E a culpa é do governo, a culpa é de alguém, nunca sua. A dor na própria carne é diferente e ele se perde completamente do mundo, fecha-se nas dores e as vive intensamente, pois agora é real, agora não dá pra fingir. E ninguém se importa. - As dores do mundo são maiores que a sua, lembra?

Tenho pena dos "realistas". Vivem na ilusão de sociedade, mas quando a sociedade lhe dá as costas e suas feridas sangram sem a visibilidade da mídia e das tragédias que movem as prensas dos jornais, ele se destaca dos demais e começa a enxergar a verdadeira face dessa comédia que é a vida na tela. As dores do mundo movem as engrenagens e são das lágrimas dessas tragédias que regamos a erva daninha que se encontra entre nossa comunidade. O sangue e o suor da maioria é o que alimenta a riqueza e faz girar as manivelas do cenário, os mais iludidos fazem a dramaturgia para que tudo continue como está, e todo mundo quer ser ator, todo mundo quer brilhar. O show só começa quando as cortinas se abrem, mas neste espetáculo, as cortinas estão fechadas e bem presas, amarradas por este ciclo viciante de ser Star! E ao seguir o script não há espaço para quem sente dor na carne. - "VOLTE A TRABALHAR!" - grita o diretor da companhia, e ao ver os outros trabalhando e se esforçando, a sua dor vai diminuindo, para de incomodar, e você continua a girar as manivelas deste circo que tanto gosta: a "Realidade".

Ricardo André Frantz: A Fronteira Final, acrílico sobre tela, 300 x 145 cm, 2011

Um comentário :

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