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quinta-feira, 16 de abril de 2015

Esqueça-me...

As 7 horas da manhã, numa sexta-feira azul, jazia no chão de olhos estatelados o corpo que já foi meu. Olhando a cena por um tempo, era quase cômico, engasgou-se com o orgulho e morreu de tanta vontade de matar quem nunca lhe fez mal. Pobre empregado que lhe passou a perna por ser mais competente, nem sabe que cometeu homicídio culposo, mas já está absolvido de culpa e nem mesmo vai ter que ir ao tribunal, afinal sou eu o culpado, confesso.

Amigos, não haverá enterro. Deixei claro que devo ser cremado, e nu. Não haverá velório, eu insisto. Aos amigos caros, amigos que me queriam bem e que me eram queridos, haverá uma pequena surpresa, preparada já quando sabia que meu destino era o precipício. Deixei a mocinha da loja de flores de olhos arregalados como os meus estão agora. Bem, os do corpo estão. 
- Deixo esses nomes e seus respectivos endereços para que no advento de minha morte, todos eles recebam este presente em casa. Quanto fica?
- Como saberemos, senhor?
- Te aviso "do outro lado". Não se preocupe. - E nessa hora, arregalou os olhos, contendo as mãos de fazer o sinal da cruz até que eu virasse as costas.

Claro que quem avisou de meu desgostoso fim foram os jornais da cidade. A maravilha de morar numa cidade pequena, qualquer notícia é notícia, especialmente a morte do coordenador do departamento administrativo da única empresa de informática da região: "Morre engasgado o coordenador administrativo da empresa MBJ nesta sexta-feira 13 de agosto." Não se engane, esta é só a chamada. Foi uma matéria de meia página, mais falando da empresa que perdia um "grande funcionário" que de mim.

Não chorem por mim, e não reclame que não quero velório. Para se despedir de mim, faça em casa, ouça uma música, converse comigo em uma oração, não importa de qual religião, faça uma festa, beba um vinho ou uma cerveja, sei lá! Mas não adianta nada ficar chorando e falando coisas bonitas em cima do meu ex-corpo, eu não estou mais lá, agora é só uma casca que, espero, as cinzas voem bem longe e me levem pra onde eu nunca fui. Para Madagascar! Não me pergunte o porquê.

Quando receber o seu presente, por favor use-o bem. Não é pra gastar tudo de uma vez, nem para ficar sozinho. Aproveite bastante, e de preferência, faça um novo amigo. Me esqueça, eu já não existo. E quando nos encontrarmos no infinito, me conte quem ganhou a corrida de fórmula 1 do domingo. O resto eu quero também esquecer.


6 comentários :

  1. Adorei e virei visitar mais vezes! =D

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  2. Alan e fiquei imaginando , seria ótimo a pessoa morrer por orgulho. Por quê? Ele seria logo erradicado desse planeta.

    Putz, que texto delicioso ... Esse personagem meu provocou inúmeras reflexões , mesmo porque a uma provocante "contradição " entre a primeira oração e a última.

    Bem, eu recebi o presente . Abraço

    Em tempo:

    "Não chorem por mim, e não reclame que não quero velório. Para se despedir de mim, faça em casa, ouça uma música, converse comigo em uma oração, não importa de qual religião, faça uma festa, beba um vinho ou uma cerveja, sei lá! "

    Perfeito !

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  3. Respostas
    1. Realmente te provocou! Que feliz estou com isso!
      Obrigado pelo comentário e muita luz! `^^´
      Beijos!

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