Os únicos no mundo...

Ela estava acostumada à rotina. O despertador tocou.
Acordou, enrolou 5 minutos para abrir os olhos, e quando abriu, estava atrasada para cumprir sua rígida lista de afazeres matinais.
Corre para o banho, relaxando com a água quente e extasiada com os cheiros do sabonete, shampoo e condicionador que eram uma combinação calmante junto com a água que lhe massageava devagar. Deu-se conta que brincava com a espuma entre os dedos, e saiu do banho às pressas, estava ainda mais atrapalhada com seus horários.


Na mesa de café da manhã já estava seu esposo pronto para o trabalho, bonito, parecia mais bonito que estava acostumada, e enquanto ele servia uma xícara de café, ficou dividida entre seu carinho, seu perfume e a surpresa de ele estar pronto antes dela. Logo entendeu que realmente estava atrasada!
Deu-lhe um beijo no rosto, sentou-se e tomou aquela xícara de café como se fosse a última. Prendia cada gole, saboreava-o, experimentando os olhos cor de mel curiosos do lindo homem à sua frente.
Levantou-se e deu-lhe outro beijo. Na boca, demorado, com um arrepio na espinha e um frio na barriga de como se fosse a sua primeira vez. Abraçaram-se, e ele surpreso, ficou sentado observando-a sair, com um sorriso largo e inesquecível.

Estava atrasada, definitivamente estava atrasada, não podia pegar o caminho que fazia todos os dias, então quando saiu com o carro, lembrou-se do atalho que pegaria. Saindo, abriu os vidros para amenizar o calor. Entrou numa rua mais fluida, acelerou até os 60 km/h e sentiu o vento tocar-lhe as faces com leveza, diminuiu a velocidade e deixou-se guiar.
O acelerador ficou mais e mais leve em seus sapatos, quando deu-se conta, o motor havia morrido bem em frente à uma árvore. Uma linda árvore! A rua estava vazia, não havia congestionamento e então uma borboleta passou em sua frente, batia as asas marrons que pareciam ter olhos observando-a, e quando as asas abriram novamente, revelavam uma cor de um amarelo vivo, com toques de laranja, bela.

Sentada no carro, esqueceu-se do tempo.
Saiu do veículo e então viu onde estava, pois sem pensar tomou o caminho pela serra, e no horário que saiu de casa, lá passava somente um carro ou outro.
Olhou pelo parapeito, viu o mar de um lado e, em meio às nuvens, estava a montanha coberta de árvores onde alguns animais trabalhavam cuidadosamente em conjunto, construindo suas casas, cuidando de seus filhotes que brincavam uns com os outros.

Meu trabalho!
Voltou ao carro e dirigiu com o vento no rosto, um sorriso bobo, a mente em nostalgia.
Chegando ao trabalho, foi conversar com a gerente e explicou que não se sentiu muito bem, por isso chegou atrasada. Enquanto conversavam, viu uma mulher sair chorando do escritório, pediu licença e foi até lá. Nunca havia visto aquela mulher por ali antes, ofereceu-lhe um copo de água e perguntou o que houve.
Ela lhe contou que na verdade chorava de alegria, seu filho havia conseguido passar na maior universidade do país. Só sentiu as lágrimas escorrendo no rosto, enquanto abraçava a mulher com força dando os parabéns.
Quando voltou, sua gerente estava assustada com aquele comportamento, deu-lhe o dia de folga e pediu que se cuidasse.

No caminho para casa, passou na floricultura e sentiu o cheiro de cada flor antes de tomar a decisão de qual iria levar, não sabia que haviam tantas flores, tão cheirosas e bonitas em um só lugar.
Passou também numa padaria, comprou 3 sonhos.
E quando chegou em casa, sentou-se no gramado do quintal, só para olhar o que acontecia por ali.
O filho do vizinho passeava com o cachorro, enquanto a faxineira de sua casa ia até ela de vez em quando, a observava com expressão descrente e voltava ao trabalho quando ela lhe sorria.
Na saída, a faxineira ganhou 1 dos sonhos, e agradecendo saiu contente.

Quando seu esposo chegou do trabalho, carregando uma garrafa de vinho, encontrou-a fazendo um macarrão com molho de camarões, na mesa 2 velas, um vaso arrumado com gardênias e 2 pequenos pacotinhos. Sentaram-se para comer e conversaram como não faziam a muito tempo. O macarrão estava delicioso e o vinho combinou muito bem. Quando comeram os sonhos, sujaram a boca de açúcar de confeiteiro, e riram o tempo inteiro como crianças.

Foram observar o céu na varanda, eram os únicos acordados no bairro, fora o gato que os vigiava do telhado.
- Eu nunca vou esquecer esse dia, minha querida, o que te deu hoje?
- Não sei, senti cada minuto, como se não houvesse nada mais saboroso, carinhoso e belo do que aquele momento, aquelas sensações... - ele beijou seus lábios - ...desse jeito.
- Se foi sorte, se foi destino, não me importo. Que esses momentos nunca passem.
- Eu que nunca tive tempo para nada, nunca percebi quanto tempo desperdicei... - ele apontou para cima interrompendo-a.

- Olha, uma estrela cadente! - A estrela rasgou o céu enquanto o casal ficou abraçado observando a noite.
E tudo o que tinham era aquele momento.
Um dia inesquecível. E em seus corações sabiam que ali, eles eram únicos no mundo.
 
Este é o João Martins, cantor e vocal da Banda Maria Palheta de Campinas/SP.

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