Preso...

Estava escuro. O lugar era enorme e eu me sentia com frio, mas bastava dar alguns passos para sentir uma fonte de calor, não sei se era vapor ou o sistema de refrigeração de uma máquina que jogava ali o que era excesso do que me faltava. Andava mais um pouco, e mais, e nada! Nenhuma mudança, senão da temperatura, quente e fria, e mais alguma coisa que ficava no meio disso.
Dormia com fome. Acordava e havia pão e água do meu lado, sem sinal de qualquer presença ou marca de passos naquele solo, que era escuro como mármore, mas não brilhava. Não havia nada que pudesse brilhar naquele espaço.
Era enorme, e se não tivesse ar, temperatura e comida de vez em quando, diria que estava vazio. Porque eu não significava coisa alguma ali.

Adiantava o passo, comia uma mordida do pão, que guardei para o caso de ter sido uma sorte grande. Mas no outro dia, havia outro.
Estava sendo observado, fui colocado naquele lugar por alguém. Alguma coisa que ficava batendo em mim e na mente, dizendo que havia de ter uma explicação, qualquer uma, qualquer coisa, para ter de estar perdido no escuro.
Alguma pegadinha, só podia ser. Ou uma vingança. Mas era tanta coisa para pouco. Eu ali, não era mais que qualquer pessoa. Não era mais, deixava de ser se fosse dizer a verdade do que se passava.

Caminhava e andava, dormia e chorava, de manhã comia e bebia água.
No caminho andava a pedra sob meus pés, e dormi tanto na pedra que não mudava que quando chorava, não sorvia nenhuma lágrima. A manhã e a noite, não sabia quem era que me dava a mão pelo caminho, nem quem podia ser, se a dama ou o cavalheiro quem me fazia par em cada passo que deixava pra trás.
Sem marcas, a única mudança que eu podia ver era do local os pés estavam, mesmo que parecesse que flutuava, por mais passos que desse, a impressão que dava era de andar em falso, ficar ali e não ficar, já não era minha preocupação.

Era frio, era calor, era pão, era suor, quando bebia água me libertava.
No quinto dia, fui dar de cara com uma sombra no fim do caminho. Ver, que já era um luxo, me foi totalmente negado. E no fim da visão havia uma linha bem definida no infinito.
Era o fim. Um precipício para os leigos. Para mim uma saída!
Corria, caía, levantava e me movia naquele infinito, não via que quando pulasse...

Pulava, e nada mudava.
Não é que eu voltasse pro mesmo lugar, mas que a água que me vinha ao acordar devia era ser abençoada. Não caía, não vazava pelo vazio.
E quanto mais caía, menos me interessava pelo espaço em preto que ali estava.
Era triste...

No caminhar de um ser sem vida, eu buscava qualquer coisa que me fizesse fim, mas nem minhas mãos me ajudavam. Até que depois de alguns dias, muitos passos e alguns pães, eu me encontrei com a água que me era entregada todos os dias.
Ah era na água que eu me libertaria.
Matei a sede, cobri o corpo e tirei o que mais me incomodava, depois de tudo isso, meti a cabeça no fundo e o fundo era só mais uma estrada.
Nunca me vi chorar, nem a água me mostrava, as gotas de lágrima  não chegavam, não faziam reflexos, e nem eu.

Molhado, seco, pão, água, preto, firme segui dentro da água até que não podia mais continuar, a água me parou e eu estaquei. Aquele momento era libertação, e depois de beber tanta água salgada, eu vi que nada era por acaso.
E no caso, depois de exatos 23 dias eu voltei pra casa. Era fechada demais, apertada, clara, fria e quente.
E a fachada não dizia nada. E eu queria dizer, eu queria ser livre de novo!
Ser livre como a minha prisão de finas paredes, construídas pela vida, sem nenhuma segurança, nem certificado de garantia. Se pudesse me entregava de novo, pra prisão que me deixava solto com minha própria vida, e mais nada.

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