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sábado, 6 de abril de 2013

Atestado de óbito...


Porto das Marés, 04 de abril de 2013

Num estado deplorável, imundo da cabeça aos pés, mesmo que no corpo nenhuma mancha de sujeira fosse notada, falecia Marcílio.
O desespero era sentido de longe e muitas de suas coisas pareciam se desintegrar quando colocadas em suas mãos. Eram ácidas suas palavras, seus pensamentos distorcidos tornavam sua realidade num limbo, onde nada crescia e onde sua alma estava presa, contorcendo-se numa lamúria divina e com nojo do mundo.

Sabe-se que a muito tempo ele se afastara da vida.
Não se importava verdadeiramente com nada, porém o descaso era consigo mesmo e este implica no fim de qualquer apreço que possa ter aos que o cercam. Não se ama o outro, se não amar a si mesmo.
O que lhe impedia de progredir era exatamente por saber desta verdade, e fazer com que acreditasse numa mentira que lhe fazia repetir todos os dias no espelho:

-  Eu me Amo!
-  Eu me Amo!
-  Eu me Amo!

Mas além de não ser verdadeiro consigo, e de seus atos provarem-lhe o contrário, ele seguia de queixo erguido, não de prepotência, mas de confiança. Enganava alguns, mas realmente aos que não lhe conheciam era o rapaz snob e nada confiante de sua própria capacidade.

Até que sofreu um grande acidente.
A realidade bateu-lhe de frente, causando uma morte lenta e muito dolorida.
Agonizava.
Nenhuma equipe médica poderia ser de grande ajuda, pois só iriam prolongar ainda mais aquele sofrimento.

E então ele sentiu algo novo, uma dor no peito que descia da cabeça e que conferia uma nova experiência.
Percebeu que realmente amava-se, só não sabia expressar os sentimentos e por isso, sofria tanto.

Nos poucos momentos agonizantes e em seus últimos suspiros de vida, descobriu que o maior peso que carregava era o de saber que amava, que sabia sobre as coisas da vida e que isso não era pesado, mas sim carregar todo aquele conhecimento, ao invés de usá-los para que sua vida toda ficasse mais leve.

Tinha todas as ferramentas e os conhecimentos para ser tudo o que sempre sonhou. E ficou feliz por entender isso finalmente.

Morreu.

Sorriu, em paz, morreu.

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