O menino do rio...

Eu via todos os dias, no fim da tarde, um menino passando na rua de casa acompanhado de seu cachorro.
Morava a algumas quadras da minha casa, atravessava o bairro e ia direto para a beira do rio.
Sentava-se lá, como se esperando que algo acontecesse. Mal dava atenção para seu inquieto amigo que queria brincar, tentando chamar sua atenção com gravetos e frutinhas.
Esperava o sol se pôr. Fazia o caminho de volta, entrava em casa e, imagino, ia se deitar, o cachorro ficava embolado no tapete da porta.

Um dia sem meus compromissos, pude acompanhá-lo até lá. 
Esperei ele passar, dei uns minutinhos e andando devagar, fiz o mesmo caminho.
Quando cheguei lá exitei um pouco, mas fingindo não ver o menino, cheguei perto do rio, me sentei no gramado e comecei a observar as águas calmas do rio passarem.

Ficamos lá, ele brincando com o pequeno cão desassossegado, eu... tranquilo. Tranquilo como a um bom tempo não estive, aproveitando um pouco da natureza que pouco me atento normalmente.
O sol se pôs, e o menino preparou-se para voltar.
Reparei que ele cochichava. Constatei que o cachorro era ruim de papo.

Demorou um tempo para que eu pudesse voltar a acompanhar o menino. Dias corridos, trabalho e tarefas de casa me deixavam muito cansado.

Quando aconteceu fiz o mesmo que antes, esperei ele passar, me sentei quieto e observei o rio, que hoje estava mais agitado, a época de chuvas se aproximava e os ventos constantes e bravios.
Estava concentrado no movimento das águas, quando um focinho gelado me despertou. O pequeno canino não queria mais saber de gravetos e bolotas, estava mesmo agitado e queria fazer amizade.
Brinquei um pouco com o pequenino, enquanto o menino só nos observava, sem mudar sua expressão.

Depois de um tempo, e antes de o sol se apagar, fui até o menino, perguntei o nome do cachorro e ele só apontou a coleira. Um pequeno osso de latão, de um lado estava gravado "Shiny", do outro um endereço, diferente de onde o garoto morava, era da cidade ao lado.
O menino levantou, e junto do último raio de sol, apagou-se no ar.
Shiny chorou baixinho, e veio pra perto de mim, cabisbaixo.

Fui até o endereço na coleira do cãozinho, encontrei uma família muito feliz por reencontrar seu animal de estimação, principalmente uma pequena garota, que estava doente de saudades dele. E então conheci a história do garoto Albert.
Num dia que foi brincar com Shiny e sua irmã Cecile na beira do rio, se desequilibrou e caiu na água. Naquele dia, ventava forte e não conseguiram encontrar o corpo do menino, nem do cachorro que havia pulado atrás dele.

O menino Albert só esperava encontrar alguém para guiar o pequeno Shine pra casa. E eu passei a visitar mais o rio e observar mais a natureza ao nosso redor...


Comentários

  1. Ah coitado do Albert, por grande coragem no coração merecia pelo menos um tempo para ser humano e aproveitar o tempo aqui. :/

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  2. Uma história comovente! Como se Albert ainda tivesse que cumprir uma missão.
    Allan, como você já participou do BookCrossing Blogueiro, já foi lançada a campanha para o 5º BookCrossing Blogueiro que acontecerá do dia 08 ao dia 16 de Novembro. Espero que venha de novo com a gente! Fica o convite!!

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