O tear de Buda - Domus Draconis

Texto do meu amigo Lobo no Domus Draconis, parceiro do Umikizu.
Fiquei impressionado e maravilhado com essa reflexão que nos ensina tanta coisa, confiram!



Pouca coisa eu desejei, como desejei essa mulher…

De fato, em minha ilusão ou percepção de apaixonado louco, Ela seria para mim toda a cura dos males de minha alma antiga e densa. Eu ansiava não só pelo corpo junto ao meu, mas queria devorar sua alma e fazer parte dela ao mesmo tempo; queria morar no espaço de éter entre sua pele e espírito e de lá nunca mais sair. Desejo sempre foi meu segundo nome, e por esses dias em vista, eu podia jurar que o meu sobrenome seria Dela…

Precisava conter minha saudade, pois notei que o próximo passo era que isso começasse a nublar minha visão. Em minha caminhada matinal, estava passando por um parque repleto de árvores, e decidi nele entrar. O sol estava causticante, mas no parque havia a sombra das árvores e a umidade própria das plantas, uma vez ali, caminhei com mais calma.

Minha atenção foi presa por um translúcido fio semelhante ao nylon, que se prendia na copa de uma árvore e descia por entre os galhos, em linha reta, direcionando-se ao chão. Seguindo com os olhos, no meio do caminho me deparei com a realidade à qual este fio pertencia, e não pude conter meu espanto.

Eu fiquei de frente à maior teia de aranha que já vi até então. Creio que a mesma possuía por volta de dois metros de diâmetro, e ao seu centro estava aquela responsável pela sua confecção…

Pairava diante de mim, menos de um metro distante, uma aranha quase do tamanho de meu punho. De fato que minhas mãos são pequenas, mas ainda assim, são maiores que a de uma criança, e de certo essa aranha era maior que as mãos de um infante.

Um calafrio Verdadeiro subiu pela minha espinha. Congelei. Meu coração palpitou mais forte e minhas pernas começaram a recuar por si – instintivamente. No instante seguinte, porém, apenas dado um passo para trás, consegui retomar o controle sobre minhas ações e parei. Tentei conter o terror e obtive sucesso, pois pouco a pouco ele se transmutava em fascínio pela figura titânica que teceu a enorme teia.

Há uma característica minha, muito íntima e que poucos têm ciência de que exista, que muito me ajudou a conter o medo que brotava em meu peito. Sempre que não sou vítima de meu temperamento intempestivo, ou quando estou alheio às pequenas coisas que transformo em grandes problemas, eu sempre tento ver o Sagrado em tudo. Quando menos dei conta, estava me lembrando da Avó Aranha, a tecelã do Destino e da Realidade, figura divina dos nativos norte-americanos, e dentro dessa correspondência, comecei meu devaneio…

Chovia na minha cidade por cinqüenta dias seguidos, portanto, chego à conclusão de que é quase impossível que esta teia tenha sido a primeira que essa aranha fez. E se a próxima tempestade que cair não matar essa aranha, mas destruir sua teia, ela irá construir outra, e mais duzentas subseqüentes, de diferentes formatos, optimizados de acordo com o cenário que cada tempestade deixar para trás.

Aliás, somente observando a teia harmoniosa mas assimétrica, é que entendi um ditado que ouço há duas décadas ‘Deus escreve certo por linhas tortas‘.

E a aranha não quer mais que isso…

Não há uma teia versão 2.0 que possa lhe causar cobiça. Tampouco ela quer estender sua área de caça por todo o parque, ou cobrar submissão da parte do ecossistema que puder dominar. Não. Ela age instintivamente, e quer ser apenas aranha – comer moscas ad aeternum e reproduzir.

De fato que se trata de uma aranha, um ser completamente instintivo como frisei previamente. No entanto, com aquele tamanho, era um dos maiores e mais perigosos predadores do ecossistema do parque, e caso quisesse se impor, factualmente seria bem sucedida – mas o instinto molda essa atitude. Regida por forças naturais, a aranha irá tomar para si apenas o que cabe a ela, e somente o que precisa para subsistir…

Rotule como quiser, mas isso me fez lembrar de Buda.

Parte importante das palavras que o Buda deixou ao mundo falam sobre o Desejo, e como isso é uma das faces criadoras da tristeza. Sofremos muito por querer algo e não conseguir, e também sofremos quando conseguimos algo e queremos manter.

Desejo, portanto, é uma das raízes das lágrimas que são frutos da Dor.

Pensativo, refleti sobre quanto o desejar desmedido não destruiu a sua própria fonte. Quantos objetos de desejo não foram motivo de sua própria danação? Quanta matéria não se perdeu desse modo? Quantas almas? Quanto Amor cessou de existir, por demasiada Paixão?

Por fim, lembro-me do mais importante; Buda não fala de Desejo, mas de Apego…

Percebi mais uma lição ali sobre o Equilíbrio que busco. Uma aranha monstruosa, que me encheu de terror e repulsa à primeira vista, elevou-me os pensamentos ao Buda. Em que mundo isso existe? Com a face prestes a ser banhada em minhas lágrimas de emoção pura – creia ou não, eu chorei – minha alma se curvou ante a sabedoria que aquela aranha me trouxe – simplesmente sendo uma aranha…

Simplesmente sendo…

(…)

Comentários

  1. Freud dizia que quanto maior o desejo, maior a infelicidade final pois o objeto mata o desejo. Ou seja, vivemos movidos pela corrida e não pela chegada. A conquista é mais importante que o objeto conquistado. Quando o conseguimos, perdemos o interesse, a graça e a beleza. Em algum ponto perdemos a capacidade de nos deliciarmos com a felicidade conquistada.
    Portanto, aproveitemos o resultado muito mais do que a luta.
    Bom dia!!!

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  2. Karamba!!!
    Pode ter certeza, Deus escreve certo por linhas tortas...

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