No coração da Noite...


...Senti aquela escuridão, cara. Senti a boca da noite se abrindo, com as presas na minha alma, quando deu aquele minuto fatídico entre seis horas da tarde e o início da noite.
A noite chegou como um calafrio...
Eu estava encolhido na porta da frente, sem chave pra entrar, e sem ninguém na cidade pra quem eu pudesse ligar. A cidade e a noite caíam sobre meus ombros, sólidas, sem perspectiva de um futuro dissolver, derreter ou sublimar.
Fazia frio, e o vento só fazia confirmar que isso iria piorar. O assobiar da ventania quedava-se constante e poético, por mais que me assustasse e então - pra não congelar - resolvi começar uma caminhada pelas vielas...
Se eu ganhasse um real para cada casa que encontrei com caras tristes na janela, eu poderia me aposentar com a fortuna. Às vezes, penso que os deuses andam por aqui pra chorar, e encontrar algo que eles mesmos não possuem em seus corações etéreos - compaixão.
Acendi um cigarro com muito custo, pois o vento - quase uma personalidade a me assombrar - fazia meu Zippo acender e apagar com a mesma velocidade. Baforei duas tragadas mal dadas, e retomei meu caminhar rumo ao fim da noite. Subi a pequena calçada, e percebi que meus passos ecoavam até nas sombras, pois tudo o que havia por ali era escuridão e pequenos focos de luz; todos haviam se retirado das janelas, e foram pra dentro da casa com suas tristezas...
Cheguei a um lugar aonde havia pequenas lamparinas acesas dentro de esferas, e parei pra respirar. Já apagava o terceiro cigarro, e meu relógio parara de funcionar então eu havia começado uma interessante contagem; quanto falta de noite, quanto sobra de cigarros no meu box.
Havia poesia por todos os lados daquele beco. Havia músicas que falavam de solidão por todo o vento, e do reboco das paredes brotavam canções de esperanças que brotam na noite. Me sentei na rua, por onde carro algum iria passar, e comecei a escrever palavras aleatórias. Saquei minha pequenina garrafa de Whisky e acendi um resto de charuto que eu carregava no bolso sem grande demora, o que me fez agradecer ao vento.
Perguntei baixinho à Noite 'Aonde me leva, mãe? Aonde me levará essa madrugada?' - mas só tive silêncio como resposta. E me veio como um estalo que ali, por onde carro algum iria passar, por onde janela alguma iria se abrir a essa hora, ali, bem ali onde eu me sentava, era o coração da Noite.
Eu sentava no chão do coração da Noite, e pisei com carinho caminhando até ele. Fui doce no trato, singelo na Voz que utilizei pra perguntar aonde eu me encontrava, enfim, respeitei um coração antes mesmo de saber que me encontrava dentro de um. Pensei mesmo, em quantos corações andei pisando por dentro sem nem ao menos saber, e quanto coração se perde nesse processo de se abrir a quem não tem cautela ou respeito pra lidar com isso.
Tomado por emoção, derramei meu Whisky no meio da rua, propositalmente, e deixei um de meus canivetes por ali. Eu amo Whisky e amo lâminas, por isso deixei no Coração da Noite as coisas que mais amo e respeito. Apaguei meu charuto na mão, coloquei o toco dentro do bolso, e me levantei.
Curvei-me com as costas retas, com as mãos ao lado do corpo, cumprimentando a madrugada como os japoneses o fazem, e comecei a andar de volta. O Whisky havia me esquentado, e eu soube que não morreria de frio após uma descoberta tão bela, por isso voltar para casa e esperar que alguém chegasse de manhã não me faria mal algum.
Senti um leve calafrio, quando passou de seis horas da madrugada, pra seis horas da manhã...

Comentários

  1. "Pensei mesmo, em quantos corações andei pisando por dentro sem nem ao menos saber, e quanto coração se perde nesse processo de se abrir a quem não tem cautela ou respeito pra lidar com isso."

    Quantas vezes abri o coração para quem não teve cautela, respeito, coragem para olhar ou vontade de conhecer?
    Não sei, não contei, nem pretendo...
    Sei que todas as vezes foram de verdade, meu coração não sofreu, por não ter sido enganado!

    Minha mente, pelo contrário, cheia de expectativa tomou inúmeros tombos, mas ela vive e não se arrepende!
    Toda vez que encontra um alguém, pergunta ao coração:
    - Vai-te abrir, meu irmão?
    E ele responde:
    - Por quê não? Me abro sem receio, o importante é que a mensagem chegue, ainda que somente no inconsciente das pessoas!

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