InterTextual: Termina e nasce outra vez...

Estou copiando este texto para divulgar o excelente protesto que o li hoje escrito por Marcio Nicolau.

Aproveitem, repassem, leiam, critiquem e mexam-se para que isso mude!

Termina e nasce outra vez


Mal começamos e é o fim. O dia primeiro encerra a ilusão do ano novo. Começamos mal, afinal. E a sensação é de que andamos em círculos.
Enquanto levitávamos em círculos sociais familiares, parlamentares circulavam em Brasília e davam a última cartada. Antigo artifício em meio aos fogos.
E nem é preciso ser vidente para ler as cartas. É evidente que os despachos nos remetem a encruzilhadas.
Dois milhões de pessoas na areia, em paz. Outros tantos milhões sendo embolsados. É a hora da virada.
Após os flashes, impressões. Ficam para trás as pegadas na areia movediça em que afundamos passo a passo e ainda assim não nos movemos.
A presidente eleita diz em seu discurso de posse que, após a travessia, o povo ocupa a outra margem. O povo à margem, bem entendido, enquanto se passa a faixa. E a empossada sobe a rampa.
Garantida a posse, primeiro ato, a essa altura estamos cheios de nós mesmos. Erguemos nossos castelos de areia ou cartas sem perceber que estamos embaralhados. Arrogantes, logo rogaremos aos céus no deserto, sem esperança.
A salvação, graças a Deus, será vendida em cultos protestantes, contra os quais, devido à natureza divina inconteste, não há protesto. Há tempos, toleramos a venda de indulgências e nos orgulhamos de nossa indulgência admirável. Afinal, cremos, evoluímos assim. O mundo, entretanto, é progressivamente pior.
E nada mais nos deixa chocados. Nem mesmo o choque entre imorais e a liberdade de expressão já em xeque. A nossa expressão é plácida e por isso pagaremos um preço caro, em cartão de crédito, cheque ou suaves prestações a perder de vista. Nossa omissão nos custará os olhos da cara.
Deitaremos agora o pensamento na rede e repousaremos a salvo a cabeça no travesseiro até que uma bala nos atravesse a parede do quarto. Sobreviventes, naturalmente, rezarão um terço por nós e seguirão suas vidas, fracionadas.
Ao meio, partidos, vivemos pela metade. Vidas inteiras são todos os dias reduzidas a pó. Enquanto isso, igrejas se multiplicam, multiplicando fiéis e dividindo a massa, cuja massa encefálica é nula.
Sacerdotes papam criancinhas e assistimos ao Papa na missa do Galo. Cordeiros de Deus, ante os pecados do mundo, temos piedade só de nós mesmos.  Mas, claro, massacramos de maneira impiedosa ovelhas negras desgarradas.
Narcisos diante de espelhos espatifados, achamos graça da patifaria. Daí a brilhante idéia: lâmpadas estilhaçadas em rostos, senão iguais aos nossos, semelhantes. Indiferentes, advogamos em causa própria e nos conformamos. De uma forma ou de outra, aprovamos chacinas.
Haverá vacina contra o vaticínio?
Não me precipito, vejo o precipício.
O absurdo é normal e em breve será norma. Da nossa tolerância se valerá. E nenhum esforço contrário, então, será válido. Os cães agora passam, amordaçados e em seguida, a caravana ladra, a nossa cidadania é furtada. Enquanto isso nos furtamos: acomodando o pensamento, sem pensar, nos sabotamos. Temos agora um ano, que tal refutar essa idéia embotada?

imagens do artista Gil Vicente

Comentários

  1. agora entendo o que você quis dizer com "estou divulgando".

    Muito obrigado, só agora li aqui.

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Comente. Há um mar de pensamentos e você pode pescar um peixe que ninguém mais conhece. Assim são as palavras no mar do Umikizu!

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