Sobre os Filhos da Queda...

Este é um texto muito especial, emprestei do blog Domus Draconis, que recomendo fortemente, com textos incríveis como esse, escrito pelos meus amigos Lobo e Roger Coy.
Aproveitem...


(...)

Lá se vai a voz perdida, entregue ao descanso e ao sonífero que uma paixão destila em veias experientes ou não. Sono venenoso contra o qual nem mesmo os deuses são imunes.
Ela perdeu um pouco da voz, ganhou mais brilho nos olhos, perdeu foco, ganhou disposição.
Entregou seu canto quase divino, e juro, sem apregoações ideais de qualquer natureza. Entregou seu físico - por quê não? Entregou a própria alma, que bem pouco conhece, a alguém cuja alma se desconhece por certo também...
Nascida depois da Queda de bordas mundiais, nascida em um mundo de uma única Berlim, o que mais podia se esperar de tal criança?
Queria mesmo, meu ancestral amigo, que ela soubesse o que é pensar para ser? Queria mesmo que ela não procurasse um dono? Queria que ela andasse com os pés no chão e cabeça nas nuvens, como andávamos antes, na época que ser uma alma era motivo de orgulho e receio?
Hoje, no mundo de uma única Berlim, ela está certa, e vós, ancestral amigo, estois errado, com toda tua polidez.
Não há mais um muro que separa o mundo em dois. Não há mais uma coleira de cimento, separando males de malefícios. Hoje se é livre para tudo, embora a Liberdade em si seja uma fruta de um árvore desconhecida - por todas as almas que nasceram depois da Queda.
E, embora dolorido seja essa atestação, eu devo lamentavelmente dizer que perderam a noção do valor da Liberdade até mesmo alguns que viveram na época de um mundo com muros e arames farpados.
Que posso cobrar dela então, que tinha voz de pássaro e sorriso angélico?
Posso somente esperar que ela se entregue mais e mais ao dono, perca mais e mais a voz, e perca também - em breve - o brilho tolo que recentemente seus olhos ganharam.
Símbolo triste de uma geração essa menina. Os Filhos da Queda têm em seu sangue a necessidade de uma amarra, a tola necessidade de podar as suas asas e renderem-se somente à luz que os maiores, que os mais velhos ou auto-intitulados mais importantes puderem lhes doar.
Resta a mim trabalhar para que alguns raros dessa geração possam perceber em si o Sol que são, ou que podem vir a ser. Muito maior que uma centelha há no coração de todos os que nasceram no mundo antes e depois de uma Berlim dividida...
'Pobre de ti que és o Sol, obrigado a ficar parado enquanto nós, satélites podemos girar ao teu redor. Não te incomoda estar sempre a observar nossas revoluções enquanto não te moves?'
E eu disse -
'Eu giro ao longo da existência de uma galáxia. Tu não percebes meu movimento por quê pensas ser a única a mover-se, pequenina lua...'
E foi-se a Filha da Queda, unir-se aos outros Filhos, cantando cada vez menos...

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