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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Diálogos: Origens

Dois anjos, mestre e pupilo, conversavam no topo de um prédio, o mais alto prédio de umas das maiores metrópoles do mundo. A chuva fria caía sobre eles...


-Vês aquele casal?
-Sim
-Ela não ama ele, e nem ele a ama. Eles têm por amor andar de carro, mãos dadas, cinema e sexo...
-E?
-Pelas forças que erigiram o Firmamento! Isto é a morte em vida!
-Deixai os mortos em paz, então...
-Mas e os filhos deles? Que será dos filhos deles?
-Eles têm vinte anos, nem ao menos pensam em filhos. Deixai-os em paz! Já fazes muito em observar, preocupar-te é um tolo dispêndio de energia...
-Mas um dia terão filhos. E estes, estes seguirão os mesmos valores de seus pais, imaginas isso ad aeternum? Imaginas? Um mundo sem Amor? É meu pior pesadelo mestre! Anseio fazer algo há milênios...
-Olvida-te do último que possuía o Dom? Lembra-te do anjo que era assim como vós, único, e que podia, assim como vós, ignorar as barreiras e ver diretamente a alma?
-Lembro-me...
-Lembras do que ocorreu com ele?
-Sim. Arrancaram suas asas e colocaram seu nome como profano nas escrituras. Moldaram o Mal sob a fôrma de seu infeliz rosto...
-Exatamente. Ele era virtuoso como ti, com um alto poder de observação... Tanto que desenvolveu este Dom, que agora possuis. O Poder de olhar dentro das almas. Isso incomoda, meu pupilo, tanto incomoda o portentor, quanto aos que não o possuem...
-Sim. Eu sei. Mantenho meu Dom como segredo, mas possui-lo me enerva! Eu desenvolvi o pecado da Ira, ao invés da Inveja ou Orgulho, comuns aos outros de nossa estirpe. Sou irascível por não exercitar meu poder para o Bem Maior...
-Compreendo... Mas nada podes fazer...
-Eu planejava Cair...
-Cair?!
-Sim. Cair.
-Tornar-te um mortal? Ser desprovido da tua realeza? Desprovido de tua espada? Desprovido de tua beleza? De tuas lembranças?
-Sim. Exatamente. Cairei e permanecerei desprovido de tudo; realeza, espada, beleza e lembranças. Contarei apenas com meus dons, e meu Dom...
-E quando pretendes levar a cabo tal desvario?
-Não sei...
-Sabes que os humanos jamais serão teus iguais? Sabes que jamais provará de aspectos como gratidão, por exemplo, e por excelência? Sabes que apenas uns poucos irão entendê-lo, e estes poucos serão rotulados de loucos?
-Sim...
-Então foi para isto que me trouxestes aqui?! Para dar-me o informe de teus intentos?!
-De modo inconsciente, eu suspeito...
-Então vá agora, enquanto a chuva nos banha. A água deverá ajudá-lo, em algum aspecto, e sempre o ajudará - durante a chuva, serão os momentos em que você chegará mais próximo dos Céus.
-Poderei trazer alguém?
-Desces na Esperança de trazer milhares, mas creia, se trouxeres um único, o Senhor já se regozija...
-O Portador da Luz já trouxe alguém?
-Milhares. Por temerem a ele...
-Mas ele não é mau. Por quê inspira o Medo?
-Porquê é sábio. Aproveitou o quadro que pintaram com seu molde e colocou o mesmo a seu favor. Agora vá, antes que a chuva termine.
-Sim... Que o relâmpago e o trovão me abençoem, então...


E caiu, para nunca mais voltar. Exceto durante a chuva...

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